Imaginação
Era fim de tarde, e o irmão mais velho cuidava do mais novo enquanto os pais estavam no trabalho. O irmão mais novo então pergunta:
- O que é imaginação?
O mais velho, que estava absorto no livro que lia, se distraiu com a pergunta do irmão. Taciturno, fitou o vazio à sua frente por um longo tempo, a mão apoiando o queixo. Ele estava pensando em como responder. O mais novo ficou impaciente.
- E então, o que é?
O mais velho novamente se virou para o caçula e sorriu para seu rostinho enfezado de frustração.
- Tudo bem, então. Feche os olhos, por favor – respondeu apenas, no que a expressão frustrada do irmão tornou-se confusa.
- Fechar os olhos? Para quê? – indagou, com as sobrancelhas juntas e uma covinha se formando entre elas.
- Apenas feche-os, por favor – insistiu calmamente o mais velho, com um sorriso ansioso e cheio de expectativa.
Ainda confuso e com certa impaciência, o pequeno obedeceu.
- Muito bem, agora me diga: o que você vê? – quis saber o mais velho.
- Ora, não vejo nada! – exaltou o pequeno, à cada segundo mais desconfiado. O que ele poderia ver de olhos fechados, afinal?
- Então, é daí que parte a imaginação – concluiu o mais velho, com um bater de palmas.
O pequeno abriu seus olhinhos, surpreso, confuso e logo depois enfurecido.
- Eu não estou entendendo. – Ele balançou a cabeça de um lado para o outro, o cenho franzido novamente em frustração.
O irmão mais velho sorriu e voltou a explicar, com um pouquinho mais de coerência desta vez.
- Imaginação é como um enorme vazio em que você pinta o que bem quer. É a capacidade de enxergar quando seus olhos estão fechados. É onde você cria o que quiser, do jeito que quiser.
- Como assim? – perguntou o caçula. Seus olhinhos cheios de curiosidade.
- Feche os olhos outra vez. Vamos imaginar! – disse o irmão, fechado seus olhos também, com um sorriso que brincava em seus lábios. – Agora, como você mesmo disse, não está vendo nada, certo?
- Isso mesmo – concordou.
- Então agora, imagine, assim como eu, mo meio desse nada, uma enorme arvore de folhas... cor de lilás.
- Mas isso não existe... como seria possível...?
- Imagine, apenas. Agora, lá ao fundo, bem distante, imagine uma montanha... amarela, e acima dela, nuvens rosas e azuis que fazem chover...
- Estrelas coloridas? – sugeriu o mais novo, tomado de excitação e admiração.
- Isso mesmo! E o céu... pinte o céu de azul-anil, e a lua será feita de cristal, e o sol, ainda se pondo no horizonte, irá refletir nela e lançar um arco-íris...
- Como um arco-íris lunar!
- Muito bom! – aprovou o mais velho. – Agora, abra os olhos – instruiu, e o pequeno o fez lentamente, apreciando os últimos segundos da bela imagem que construíra.
- Incrível! – exultou.
- Você entendeu? Isso é imaginação – concluiu o irmão, simplesmente.
- Então eu já sabia o que era. Não é tão difícil de quando eu sonho, à noite. A diferença é que eu estou acordado – disse o caçula. – Mas você complica, hein!
- Como assim? – perguntou o mais velho, de repente confuso.
- Você diz que imaginação é um enorme vazio para preenchermos, certo?
- Basicamente, sim.
- Era bem mais fácil dizer “tornar possível o impossível”.
- É mesmo? – indagou o mais velho, sorrindo.
- Sim – confirmou o mais novo, sorrindo também. – Feche os olhos. Vou fazê-lo entender...
Além da imaginação - algo tão abstrato para ser explicado (diga-se de passagem o fez muito bem) - gostei da forma que também expôs a forma que os "mais velhos" abordam tudo, sempre procurando explicar complicando e fugindo da simplicidade, sempre melhor de ser compreendida.
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