Nas Noites de Céu Estrelado
Eu queria muito começar esta história com “Era um belo dia de sol”, mas a verdade é que não era. Era época de chuva forte, muito forte. Eu não me lembro, de fato, mas é o que sempre dizem quando pergunto. Dizem que muitos perderam muita coisa. E que eu não fui a única a perder tudo, principalmente a família. Desde então, o orfanato passou a ser meu lar. Orfanato é como chamam este lugar, porque é cheio de órfãos, ou órfãs, assim como eu. Orfantório ou guarda-orfãos também são termos cabíveis. Particularmente, gosto de guarda-orfãos. Tinha cinco anos quando vim para cá. Diziam que era um milagre eu ter sobrevivido, e que havia muita terra. Diziam sempre isso, “havia muita terra...” A vida ali era satisfatória. Já tive quatro anos para me acostumar. Havia dor, às vezes, e algumas noites eram muito frias. Mas tínhamos uns aos outros – as tias que cuidavam de nós nos ensinavam a valorizar isso. Essas coisas faziam-me pensar no orfanato como se fosse remédio...