Nas Noites de Céu Estrelado

Eu queria muito começar esta história com “Era um belo dia de sol”, mas a verdade é que não era. Era época de chuva forte, muito forte. Eu não me lembro, de fato, mas é o que sempre dizem quando pergunto. Dizem que muitos perderam muita coisa. E que eu não fui a única a perder tudo, principalmente a família.

Desde então, o orfanato passou a ser meu lar. Orfanato é como chamam este lugar, porque é cheio de órfãos, ou órfãs, assim como eu. Orfantório ou guarda-orfãos também são termos cabíveis. Particularmente, gosto de guarda-orfãos.

Tinha cinco anos quando vim para cá. Diziam que era um milagre eu ter sobrevivido, e que havia muita terra. Diziam sempre isso, “havia muita terra...”

A vida ali era satisfatória. Já tive quatro anos para me acostumar. Havia dor, às vezes, e algumas noites eram muito frias. Mas tínhamos uns aos outros – as tias que cuidavam de nós nos ensinavam a valorizar isso. Essas coisas faziam-me pensar no orfanato como se fosse remédio – não são tão agradáveis, mas nos fazem bem.

E tínhamos a promessa. A promessa de que um anjo viria nos buscar, um para cada um de nós.

E eu ainda tinha meu melhor amigo. Nós brincávamos sempre, e isso nos fazia esquecer das coisas ruins.

Um dia, eu o esperei no lugar de sempre, debaixo do carvalho no jardim, mas ele não apareceu.

Procurei-o em todo lugar, mas não o encontrei. Fui perguntar à tia Joana se ela sabia dele. Ela me disse que um anjo viera buscá-lo, e que ele agora começaria uma vida nova e feliz com sua nova família.

Por dias, aquilo me entristecera. Mas, com o tempo, fiquei feliz por ele. Seu anjo enfim viera, e agora ele seria realmente feliz.

Voltei a falar com tia Joana, querendo saber sobre esses anjos. Ela me disse que eles vinham buscar as crianças para viverem com eles em suas famílias, e que um dia o meu chegaria.

E foi naquela mesma noite, que eu quis que meu anjo viesse.

Eu não sabia quando viria, mas supus que apareceria a noite. Imaginei-o vindo numa noite estrelada, entrando por minha janela e me levando para a felicidade.

Por várias noites, quando não chovia e eu podia ver as estrelas no céu, eu ficava na minha janela esperando pelo anjo. Mas ele não vinha.

Pensei que talvez não pudesse me ver ali naquela janela escura. Foi então que, em todas as noites estreladas, eu passei a esperar pelo meu anjo debaixo do carvalho, no jardim.

Eu ficava a noite inteira olhando para o céu, esperando, esperando... Quando dava por mim, estava em minha cama, envolta em cobertas. Pensara que anjo me colocara ali, por não saber qual era o meu verdadeiro desejo, e por eu não estar acordada para lhe dizer. Estava então decidido: eu não podia adormecer.

Por várias noites eu tentei, e em todas falhara. Eu adormecia em algum momento da noite, e despertava em minha cama todas as manhãs...

Na próxima noite, eu deixaria uma carta para o anjo. Assim, quando viesse, dessa vez saberia qual era o meu desejo de fato.

Aconteceu que naquela noite, eu senti os braços do anjo me colocando na cama, e, emocionada e ansiosa, abri os olhos. Mas não foi o anjo que eu vira – era a tia Joana.

Eu senti a raiva deixar meus olhos molhados. Eu gritei com ela. Depois que ela saiu do quarto, com lágrimas nos olhos também, tentei me acalmar. As outras crianças no quarto me encaravam, mas eu as ignorava. Quando finalmente a calma chegou, veio com uma triste conclusão – os anjos não existem.

Alguns dias se passaram. Choveu em muitos deles. Nos primeiros dias, eu via a tia chegando, toda molhada da chuva, mas eu não falava com ela. Depois de uns dias, não a vi mais. Diziam que ela adoecera – pneumonia.

Depois de uns dias, eu me senti culpada por tê-la magoado, e quis me desculpar. Fui perguntar à diretora do orfanato quando ela voltaria, mas o que ouvi fora pior do que eu podia imaginar.

- Ela não voltará. Eu sinto muito, criança. A saúde já estava frágil desde tempos...

Chovia muito naquela noite, e a dor corroia meu coração. Eu queria que parasse. Desejei desesperadamente. Eu precisava de um anjo para me tirar dali. Eu queria felicidade e conforto.

Fui para debaixo do carvalho, sentei-me e esperei. Eu não podia ver as estrelas, mas talvez elas pudessem me ver e conceder o meu pedido.

A chuva cessou. O céu começou a se abrir na noite e eu sabia que as estrelas logo apareceriam. A aurora se aproximava no horizonte e eu temia que não houvesse tempo – que as estrelas se fossem antes de me saudar.

Um raio de sol cruzou o céu naquele instante, e eu o vi – me anjo vinha até mim. Por um momento, brilhava tanto, que não pude ver seu rosto. Quando o vi, fiquei estupefata – era a tia Joana. Ela veio até mim, caminhando, e me tomou nos braços, carinhosamente. Quis indagar onde estava meu anjo, mas as palavras não me vinham.

Ela me levou para dentro de uma casa, mas não parecia o orfanato. Ainda assim, era familiar. Havia pessoas lá dentro, e sorriam para nós. Eram-me familiares também.

A tia me levou até o quarto, e me colocou na cama, envolvendo-me com a coberta, como sempre fez. Ela se aproximou e me deu um beijo na testa. Quando finalmente se afastou, foi que eu pude ver suas asas. Ela começou a brilhar.

Acordei debaixo do carvalho, sozinha. Sentia muito frio. Não havia quem me carregasse para dentro naquela manhã. Deitei-me outra vez e desejei poder dormir para sempre.

Comentários

  1. Nossa Mi, eu gosto de ler as coisas que você escreve em voz alta, sei lá, acho mas emocionante, e me arrepiei toda lendo esse teu conto. Que coisa mais lindinha Mi. Os anjos existem afinal. Eu adorei. s2

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  2. Oiiii ficou incrivel seu conto
    é um texto realmente pra se emocionar
    você tem muito talento garota!
    Tudo que você escreve é lindo!
    Beijoss

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  3. Taxamos como seres alados e de áurea luminosa os ANJOS, quando na verdade não há forma física para tais.

    O clímax do conto é emocionante e seu desfecho, inebriante. Parabéns!

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