Coração de Margarina...

Quando minha mãe me acordou naquela manhã, eu já estava muito assustada. Tinha seis anos, e era meu primeiro dia de aula na 1ª série. Ansiosa, animada, assustada, arrepiada, amedrontada... me revezando em sentimentos que começam com "A".

Pensava em como havia sido na pré-escola, e em como seria diferente agora, na primeira série.

Mas ao ficar de frente para o portão da escola - mesmo com minha mãe ao lado e meu pai no carro logo atrás, sorrindo orgulhoso, incentivante e provavelmente já ciente do que viria à seguir -, percebi que só o prédio e as crianças seriam diferentes, o resto iria ser exatamente igual - eu choraria...!

Eu chorei. Lembro de dizer à minha mãe que estava com dor de barriga, agora não sei se de nervoso mesmo ou como um falso pretexto para minhas lágrimas abundantemente vergonhosas. Não queria largar da minha mãezinha de jeito nenhum. De fato, não larguei. Ela teve que me acompanhar até a sala de aula e me colocar sentadinha na carteira, sob o olhar de todas as outras mães e seus filhinhos de olhos sequinhos. Por que não nasceram todos chorões para que pudessem me apoiar?! As crianças deveriam ser mais unidas e solidárias, e quando uma chorasse, todas chorassem também - e acho que acabei de pintar o quadro dos horrores de todas as mães...!

Acho que ganhei fama logo no primeiro dia. Chamavam-me de "A Chorona". E minha mãe, sendo mãe e boa mãe, não ficou de fora - chamavam-na "A Mãe da Chorona". Até hoje a abordam assim: "Oi, você é a mãe da chorona! Como ela está? Chorando muito?"... Ah, o amargo preço de da fama... as pessoas simplesmente não te esquecem!

Fiz minha primeira grande amizade também. Ela sentava atrás de mim na sala de aula e suas primeiras palavras para mim foram: "Oh, chora não..." - que lindinha... mal sabia que me consolaria pelos próximos dez anos!

E os anos se passavam... e as lágrimas continuavam caindo, e a fama continuava aumentando - não querendo ser sensacionalista, mas acho que até virei boato nas escolas vizinhas...!

A questão era que eu não parava de chorar e chorava por tudo. E eu não era e nem sou uma pessoa infeliz!! Por que será que eu chorava e choro tanto? A única certeza que tenho até hoje é que minhas glândulas lacrimais são super-hiper-mega-master-blaster-plus-sensíveis à qualquer oscilação de emoções. E o que mais? Talvez um pouco de auto-piedade... eu me via chorando e pensava: "Ah, tadinha de eu...", e chorava ainda mais!

Quando aquilo começou a me perturbar de verdade - acho que foi no dia em que a professora ensinou os derivados do leite e a diferença entre manteiga e margarina: "Manteiga é mais gordurosa, sempre prefiram margarina!" -, fui conversar com meu pai à respeito. Perguntei bem inocentemente: "Pai, por que eu choro tanto?". Seria demasiado previsível se eu disser que chorei?...

Meu pai, que já gostava de filosofar, me colocou no colo e contou uma história.

"Era uma vez, uma garotinha muito esperta e sorridente, que parecia estar sempre feliz. Mas, como todo mundo, ela ficava triste às vezes, só que ninguém percebia".

"Por quê?" perguntei.

"Por que ela não chorava. Nunca chorou. E quando ela percebeu isso, ficou ainda mais triste. E mesmo assim, ainda não chorava.

Todos vinham falar com ela, mas ninguém percebia o quanto ela sofria. Até que um dia ela fugiu para a floresta, onde decidira viver pelo resto de sua vida.

Os aldeões passaram a procurar por ela, pois seus pais estavam muito preocupados.

Eles chamavam seu nome e em seguida se calavam, esperando ouvir o som de seu riso sapeca, que era o que mais conheciam da menina. Achavam que ela estava em algum tipo de brincadeira. Mas não ouviram nada.

Não muito distante deles, a menina estava oculta por debaixo de folhas de samambaias, bem quietinha, tentando chorar. Mas ela não conseguia, não sabia como fazer, não conhecia o ato de chorar, e então desistiu. Quis dormir, fechar seus olhos para sempre, já que deles não saía nada.

Foi então que ouviu um barulho estranho - parecido com de asas batendo - e, em seguida, passos tão leves que mal se faziam ouvir e vinham se aproximando.

Abriu os olhos devagar e viu um anjo.

Ela não disse nada, e ele ficou olhando. Quando falou, era a voz mais bela que ela já ouvira. E ele perguntou:
- Por que você está triste?

- Como sabes que estou triste? - ela retrucou. - Como sabes, se não estou nem chorando? Acho que eu tenho olhos de vidro e coração de gelo, que é como meu pai diz de gente que não chora...

- Seu coração é doce e quente - o anjo falou -, e seus olhos são como o céu de noite, são infinitos... Mas sua alma chora, e está perdida nesse infinito. Tem medo de se mostrar...

A menina ficou assombrada. Não era assombro de medo, horror. Era de outra coisa, mas não sabia explicar...

- Está tudo bem - o anjo garantiu. - Eu estou aqui para proteger-te e reconfortar-te. Não quero vê-la assim tristonha. Não tenha medo de mostrar sua alma. Ela é bela.

E, naquele momento, sua respiração acelerou e ficou difícil engolir. Sentiu uma aflição no peito, bem no coração, e sentiu que algo escorria de seus olhos. Ainda mais assombrada, levou os dedos aos cantos dos olhos, e, ao afastar uma das mãos, percebeu em seu dedinho uma gota de água que reluzia sob a luz do luar. Era a sua primeira lágrima e a coisa mais linda que já vira em todo o mundo. Ela sorriu, e foi pegando lágrima por lágrima, colocando uma em cada dedo, mas algumas escorriam por seu rosto, molhando suas bochechas, e ao libertar o que para ela era um sinal de tristeza profunda, sentiu muita felicidade.

Continuou à olhar para suas pequenas gotinhas, pensava em como brilhavam. Pensou que seus olhos estavam brilhando da mesma maneira.

Eram tão lindas, que pediu ao anjo que lhe fizesse um favor.
- Quero que eternize o brilho de minhas lágrimas, para que todos os dias, até quando não chore, eu possa vê-las.

O anjo respondeu:
- Vou eternizá-las assim como as vejo em seus olhinhos... brilhando no infinito do céu da noite; vou transformá-las em estrelas!

- Não só de minhas lágrimas, transforme em estrelas todas as lágrimas dos olhos de todo o mundo!

O anjo se levantou, deu um beijo na testa da menina e alçou voo. A menina continuou olhando para o céu. De repente, de uma em uma, as estrelas foram surgindo no céu escuro, que brilhava tanto quanto os olhos da menina, que eram infinitos...

A menina voltou para sua aldeia, e sempre que chorava, era a pessoa mais feliz do mundo, e o céu cada vez mais estrelado...

E fim!"

Meu pai terminou a história e esperou que eu falasse.

"Então... chorar é bonito?" perguntei.

"Sim, porque é quando você revela sua alma. Nunca se envergonhe disso. A menina temia ter um coração de gelo, mas, na verdade, o coração dela era assim igual ao seu: coração de manteiga."

Meu pai sorriu, mas eu me lembrei da lição da professora naquela manhã e discordei:

"Eu? Coração de manteiga? É margarina, que manteiga é mais gordurosa... Até parece nome de história... Coração de Margarina...!"


*Dedicado à minha amiga Bia - que entende melhor que ninguém esse "coração de margarina" - e com uma referência especial à minha amiga Sabrina - que me disse "Oh, chora não" no meu primeiro dia de aula...!

Comentários

  1. Espetacular! Você conseguiu mais uma vez, me surpreender! Como sempre, uma capacidade de sintaxe excelente! É surpreendente o quão fluente e espontânea se torna a leitura.
    O conto é uma bela receita! - uma mistureba que deu muito certo - Você conseguiu fundir fatos passados e assuntos corriqueiros a sua criatividade, e o fez com louvor!
    Adoro quando sua criatividade decide emergir! Fico deslumbrada, sendo chata e escrevendo todos os adjetivos que consigo recordar, para tentar mostrar o quanto gostei de cada parágrafo escrito por você, minha linda 'coração de margarina'.
    O que dizer além de 'parabéns, você se superou mais uma vez'?
    Já sei: senti muito mais emoção neste conto. Foi lindo. Eu visualizei toda a história perfeitamente.
    Super beijo. (estou orgulhosa de você, coração margarina)

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  2. AAAAAAAAAAAAAAAAA Michelle de Deus, que coisa mais linda. Esse é com certeza um dos seus melhores contos, poax. Eu adorei. Eu lembro de ti no primeiro dia de aula, chorando e com a sua mãe... Achei que você não devia sair muito de casa, por isso tava com medo, senti por você. KKKKKKKK "- Seu coração é doce e quente - o anjo falou -, e seus olhos são como o céu de noite, são infinitos... Mas sua alma chora, e está perdida nesse infinito. Tem medo de se mostrar..." Essa foi a coisa mais linda que eu já li. E essa menina que não chora, até parece eu, qiso. KKKKKKKKKK
    Acho que é por isso que eu te amo tanto Mi, porque você chora minhas lágrimas por você e por mim.

    ""Oh, chora não..." - que lindinha... mal sabia que me consolaria pelos próximos dez anos!" E que venham quantos anos mais tiverem que vir. s2

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