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FALTA

  A poesia do toque A concretude dos afetos A eloquência das mãos A textura de longas teorias A pele das filosofias O atrito O encontro A matéria dos vínculos O amor em substância E substantivos E as sentenças não ditas  Numa sequência de gestos Infinitos. 2020
De tanto suspiro que o mundo colheu surgiu o vento das desilusões que carrega o peso de tudo o que foi e não foi.  2012.

cinza

Um sentimento de dia cinza; um vento soprando tristes melodias. Um suspiro nublado. Um quarto e uma série de objetos deitados. Não há forças para existências verticais. Fios de cabelo soltos, espalhados pelo lençol da cama. Travesseiro amassado. O peso de um dia ainda pela metade. Uma nota longa balança a cortina. Um frio no pé que sobe e arrepia uma saudade na pele. Um gole de chá - um tom mais quente, ainda que melancólico. Uma mão que repousa sobre o ventre, sentindo o ir e vir de um ar nostálgico. Uma varanda azulejada sustenta um olhar distante. O  horizonte na paisagem, todavia, não é longe: deita-se sobre os telhados de padrão irregular, logo em frente, do outro lado da rua. Fios e cabos elétricos riscando linhas, desenhando caminhos tortos - ora se cruzam, ora se afastam; quando se encostam, dão nós. A rede do quarto solta no chão; os ganchos na parede, sustentando nada. Só o tempo suspenso. 29.04.2020

Caminhos

A gente nasce, nascente; vai derramando, sem prumo, até ganhar corpo, rumo, virar riacho, virar rio, virar gente. Virar caminho. Fluxo pra várias direções; umas se perdem cedo; outras vão se perdendo, se achando, até se perder de novo, se achar de novo… outras seguem mais e crescem ao longo - das descobertas, do tempo, da vida. Somos caminhos. E nossos caminhos vão se encontrando com outros, e tantos… os caminhos se cruzam, entrecruzam, alguns seguem juntos, se emaranham, viram quase um só; pisa-se manso, firma-se o passo, acerta-se o ritmo e seguem olhando à frente, o tanto que o caminho se estende… Miragem, no horizonte; que distante assim, a gente só pode é dar palpite, que vira desejo, vontade, nos impele uma busca, é no fundo esperança… planos. Mas cada passo, presente, leva a gente caminho pro desconhecido; futuro é incerto. Certeza é vento… que vem, vai, leva, traz, muda, transforma, e segue assim, indefinido.   Vento ...

Otimismo

Acordou com o canto de um passarinho solitário, porém de timbre afinado e disposição pra manhã inteira... Acordou sem abrir os olhos, mas sentindo o sol invadir sua casa e tocar suas pálpebras, suave e delicadamente... Manteve os olhos bem fechados, procurando ausentar-se do mundo naquele vão entre o sonho e o estar desperto... a semiconsciência lhe permitiu notar - pela ausência de cheiros e certa dificuldade em respirar de boca fechada - que ainda estava resfriado. O elo com o sonho lhe permitiu não ligar, e explorar um sentido que estava mais do que aguçado naquela manhã... Ouviu o barulho de água correndo não muito longe dali... ouviu o vento avançar contra uma árvore e levar embora metade de suas folhas amarelas - era outono, portanto, a árvore não oferecia resistência. Queria logo era experimentar sua folhagem nova, que demoraria um tantinho para aparecer, mas ela decidira que valia a pena esperar... e aguentar o vento despindo-a sem remorso algum, como uma criança sa...

Sorrisos

Vem a mim com um sorriso doce Estendo a mão para afagar-lhe o rosto Sorri pra mim como se ainda mais feliz fosse Só por saber o quanto lhe gosto Vem a mim com um sorriso terno Daquele que vejo e escuto “eu te amo” E meu sorriso em retorno é como um agradecimento eterno Por tê-la tão perto desse coração insano Vem a mim com um sorriso desconcertado De quem sabe que fez bananice Sorri ao sorriso que fala: “ta perdoado”, E aquiesce ao sorriso que diz: “eu te disse...” Vem a mim com um sorriso dengoso De quem precisa de um abraço, um carinho, atenção Estendo meus braços, e meu sorriso teimoso Teima em mostrar-se, mostrando satisfação Vem a mim com um sorriso afetado E estende-me os braços, me acolhendo em seu colo E minha inquietude cessa quase que de imediato E disfarçadamente ou não, eu choro Vem a mim com um sorriso bobo Fazendo birra, implicantemente insistente Ou só está contente, por qualquer motivo tolo Ou é só consolo, de...

Súplica ao Tempo

Concede-me essa dança, uma última vez Tenta ver a intensidade com que lhe peço É que não sei se estou pronta para me despedir Mas não se preocupe - quado estiver, me despeço Não é que eu esteja querendo prolongar É só que não sei o sentido do fim Se soubesse, talvez fosse mais fácil aceitar Se souberes, então digas para mim É que nunca parece o bastante Mas o é, justamente por não parecer Mas se de fato o fosse, então porque persiste o vazio sufocante? Talvez por querermos sempre mais do que podemos ter... Notas finais sobre o poema: Esse poema só foi postado por intermédio de uma alma bondosa que intercedeu por esses versos mal amados... (é que eu mesma não me agradei muito desse versar, motivos pessoais. Mas me disseram que valia a pena postar, e eu confiei). Enfim, agradecimentos à Maria Bia, que resgatou esses versos do purgatório e fez com que lhes fosse concedido um cantinho 'num lugar entre rosas e anjos'... PS: E a manola Sabrina também, que disse que ia me bater ...