Antes que a cidade desperte
O céu amanheceu cinza - como se fosse um prelúdio de como ficaria pelo resto do dia. A cidade ainda dormia, portanto havia pouco movimento na rua, e o menino, já tão cedo desperto, aproveitou para visitar um lugar particularmente mágico e especial para ele.
Tinha lá seus dez anos e um óculos de armação quebrada, mas ele não se importava, ainda mais ali, cercado por tantos livros - seu paraíso pessoal, refúgio de todas as manhãs.
A biblioteca era imensa, e o garoto se achava pequeno demais para ela. Enquanto passava pelos corredores - que lembravam muito as paredes de um labirinto -, corria os dedos pelos livros, tanto para sentir a textura quanto para não se perder.
Olhava fascinado para os títulos sobre seus dedos e também para os que estavam nas prateleiras mais altas, fora do alcance de suas pequenas mãozinhas. Todavia, não se atrevia à pegar nem mesmo esses que alcançava. Achava-se pequeno demais para absorvê-los também.
Logo chegou ao que procurava de fato - a seção infantil. E ali, seus olhos se perdiam na profusão de cores das capas, dos títulos, gravuras...
Os livros de adultos não eram assim tão coloridos, e ele se perguntava o porquê disso. Ele pensava que as cores eram como uma magia à parte nos livros, e todos precisavam de magia, até os adultos.
Começou logo a procurar pelas histórias que comporiam a sua leitura do dia. Eram tantos!
Por fim, quando em seus braços já não cabiam mais livros, o menino dirigiu-se à sua mesa habitual e espalhou-os por sobre ela.
Um por um, pensava já ter lido mais de cem. Sua leitura era rápida, pois temia não haver tempo para todos.
À todo momento, esboçava um sorriso no rosto. Ora, de alguma cena engraçada na história, ora de pura satisfação.
E as horas iam passando, silenciosamente, mal se fazendo notar. Só quando o ruído distante do tráfego alcançou os ouvidos do menino, familiarizados ao som, foi que a distração surgiu e a leitura teve de cessar. A cidade acordava e era hora de partir.
Deixou os livros em cima da mesa, levantou-se e ficou a olhar para eles por um momento - uma despedida silenciosa. E então partiu.
Passando novamente pelo corredor, mas agora fazendo caminho inverso, pensava em seu fascínio pelos livros. Mas daquele mundo de letras e imagens, guardaria apenas as imagens, pois as letras ainda não conhecia muito bem. Sabia que um dia iria, e, quem sabe, podia até mesmo escrever um livro. Se para adultos ou crianças, ainda não tinha muita certeza, mas sabia que seriam coloridos - todo mundo precisa de magia.
Já do lado de fora, estava pronto para mais um dia. Para sua surpresa, o céu estava claro, com apenas algumas das nuvens que ocultavam o sol naquela manhã. O sol agora brilhava e refletia nas janelas dos carros. E o menino pensou que aquele poderia ser um dia ótimo.
O farol fechou e os carros já estavam dispostos, aguardando o show. O garoto sorriu - era realmente um belo dia de sol -, tirou as bolinhas do bolso e se dirigiu à frente deles.
E deu início ao espetáculo. O tempo era curto, a recompensa incerta. Ele pensava em tudo o que podia fazer se não tivesse de estar ali. Correr no parque, mergulhar, se tivesse piscina. No entanto, já havia se conformado com sua situação. E se contetava com as moedas que recebia, e tinha esperanças. E tinha o seu pequeno paraíso, todas as manhãs, antes de se apresentar ao mundo, antes de encarar a vida.
Ele sorria em direção aos rostos invisíveis na plateia de carros, alheios ao espetáculo, ao dia de sol, aos livros nas estantes da biblioteca da esquina... O farol então abriu e a plateia partiu. Logo seria substituída por outra. E assim se repetiria, pelo resto do dia.
Ele sorria em direção aos rostos invisíveis na plateia de carros, alheios ao espetáculo, ao dia de sol, aos livros nas estantes da biblioteca da esquina... O farol então abriu e a plateia partiu. Logo seria substituída por outra. E assim se repetiria, pelo resto do dia.
A cidade estava enfim desperta.
Não pude deixar de imaginar seu conto ocorrendo na Biblioteca Belmonte, estou tão familiarizado com ela que ao ler foi ver um pequeno filme em minha mente, em Santo Amaro, no cruzamendo da Paulo Eiró com a Mari Lopes Leão: um biblioteca de esquina, não é mesmo!
ResponderExcluirSão tristes realidades, tanto o descaso com os livros e com as belezas da vida quanto a situação de tantos jovens vivendo em situações subhumanas em nossa "grandiosa" nação, você teve tato para explorá-las nesse conto, parabéns!
Os livros adultos não são mesmo muito coloridos... Adorei!
ResponderExcluirMais um, por favor!
Poax Mi, tadinho do menino. Dessa fez você me fez refletir, porque tanta gente poderia estar fazendo coisas grandiosas se o mundo fosse menos desigual... Bom, eu adorei como sempre, parabéns Mi, hihi.
ResponderExcluirAin eu simplesmente amei esse conto...já li e reli varias vezes..é um dos meus favoritos e que me fazem chorar ao sentir a triste realidade.
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